Este blog pretende ser um fórum de comunicação do Comité de Mulheres Escritoras do PEN Internacional. Podem enviar textos curtos, imagens, links, tudo o que expresse e celebre a nossa vitalidade, raiva e alegria.

This blog aims to be a communication forum of the IPWWC. You may post short texts, pictures, links, everything that expresses our vitality, anger and joy.

Ce blog voudrait être un forum de communicationdu Commité de Femmes Écrivains du PEN International. Vous pouvez envoyer des textes courts, des images, des links, tout ce qui puisse exprimer notre vitalité, rage et joie.

Este blog pretende ser un forum de comunicación del Comité de Mujeres Escritoras del PEN Internacional. Uds. podrán enviar textos cortos, imágenes, links, todo lo que exprima nuestra vitalidad, rabia y alegría.

Teresa Salema (Presidente do Pen Clube Português)
geral@penclubeportugues.org

IPWWC (Dakar, 2007)

13 Jan 2011

Maria da Conceição de Deus Lima (Santana, 8 de Dezembro de 1961), mais conhecida por Conceição Lima, é uma poeta natural de Santana da ilha de São Tomé, Estudou jornalismo em Portugal e trabalhou na rádio, televisão e na imprensa escrita em São Tomé e Príncipe. Em 1993 fundou o semanário independente O País Hoje. Na altura exerceu a função de directora do mesmo até a data da sua extinção. É licenciada em Estudos Afro-Portugueses e Brasileiros pelo King's College de Londres. Já publicou poemas em jornais, revistas, e antologias em vários países. Em 2004 publicou O Útero da Casa pela editorial Caminho de Lisboa e em 2006 publicou A Dolorosa Raiz do Micondó pela mesma editorial.

Maria da Conceição de Deus Lima (Santana, December 8, 1961), also known as Conceição Lima, is a Santomean poet from the town of Santana. She studied journalism in Portugal and worked in radio, television and in the print press in her native country. In 1993, Conceição Lima founded the weekly independent publication O País Hoje (The Country Today) which she directed and wrote for during its circulation. She received a degree in Afro-Portuguese and Brazilian Studies from King's College in London. Her poetry has been published in newspapers, magazines, and anthologies in several countries. O Útero da Casa was her first book of poetry and was published in 2004 in Lisbon by the Portuguese publishing house Caminho. Her second book (also poetry), A Dolorosa Raiz do Micondó, was released in 2006 by the same publisher.

A CASA

Aqui projectei a minha casa:
alta, perpetua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poroso
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado
Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem trancas nos caminhos.
Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
Recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul
E reinvento em cada rosto fio
a fio
as linhas inacabadas do projecto.

In O Útero da Casa, Ed. Caminho, 2004

THE HOUSE

Here I wanted my house built.
It was to be tall, permanent, made of stone and light.
Of porous black basalt
brought from Mesquita.
The roof-tiles made
with mud from Riboque,
red as the heart of the hibiscus flower.
There would be a vast glass window
to give it a certain public air.
The backyard would be smooth and round
open to all paths.
Upon the ruins of the dead city
I laid the plans for my house
standing proud against the sea.
Right here.
I even dreamt of a dock –
tall and grand as an altar.
I can hear the murmur of boats
From my blue verandah.
In face after face I trace
The unfinished lines of my plans.

Translation copyright 2007 by Amanda Hopkinson. All rights reserved.


A LENDA DA BRUXA


San Malanzo era velha, muito velha.
San Malanzo era pobre, muito pobre.
Não tinha filhos, não tinha netos
Não tinha sobrinhos, não tinha afilhados
Nem primos tinha e nem tinha enteados
Era muito pobre e muito velha
Muito velha e muito pobre.
Era pobre, era velha san Malanzo
Pobre e muito velha
velha e muito pobre
Era velha e pobre
Era pobre e velha
Velha pobre
Pobre velha
Velha
Pobre
Feiticeira.

In A Dolorosa Raíz do Micondó, Ed. Caminho, 2006


THE TALE OF THE SORCERESS

San Malanzo was old, so old.
San Malanzo was poor, so poor.
No children nor grandchildren,
Still less step-children, even nephews.
She was so very poor and so very old.
Old and poor she was, San Malanzo,
Poor and very old.
She was old and poor Old poor-- Poor old-- Old Poor Sorceress.

Translation copyright 2007 by Amanda Hopkinson. All rights reserved.


OS PEQUENOS TIRANOS

Os pequenos tiranos
que fundaram um reino ao pé da sua tristeza

Os pequenos tiranos que não conquistaram os mares da China
nem os domínios do Manicongo

Os pequenos tiranos que tarde escalaram o tejadilho
e do alto avistam um globo minguado

Os pequenos tiranos arrastam p'los corredores
sapatos que iluminam a sua missão
e engendram em timbradas pastas secretas linhas de acção.

Vendam os olhos à faísca que na dúvida tresluz
e sussuram o édito em minúsculos conclaves
porque temem das palavras o eco e o rasto

Vivem barricados nos próprios passos
pois ser suave e ser lento, julgam,
é ser clarividente é ser sábio.

São homens estreitos e magros e lentos
os pequenos tiranos
que sonharam suspender os ponteiros dos relógios.

Não sabem que são cegos e tiranos os ponteiros dos relógios
e quando a tarde derrota a urgência do memorando
trancam devagar a porta do seu reino
e naufragam num mundo que agrava
o peso do corte dos seus fatos.

Os pequenos tiranos
são homens estreitos e magros e lentos
que não conquistaram os mares da China
nem os domínios do Manicongo

Temem das palavras o rasto
e sussuram o édito em vazios conclaves
para ampliar o eco da sua perpétua infância.

In 'A Dolorosa Raiz do Micondó'
 

PETTY TYRANTS

Petty tyrants
who founded kingdoms at the foot of their sorrow
Petty tyrants who will never conquer the China Seas
or the realms of Manicongo

Petty tyrants who climb the roofs of their shacks
and survey the waning world from on high

Petty tyrants tear the shoes off speeding runners
who illuminate their messengers' way
and produce clandestine plans of action in sealed portfolios.

They blindfold sparkling eyes letting no light enter
and whisper proclamations in closed conclaves
fearful of words with the power to echo or leave traces.

They live immured by their footfalls
for to be gentle or slow is, they judge,
to be both discerning and wise

They are meagre, narrow and slow men,
these petty tyrants,
who dream of stopping the clocks.

They don't know that clock hands are also blindly tyrannical
and when evening destroys the urgency of their appointments
they gradually bolt every door to their kingdom
shipwrecked in a world which aggravates
the evil weight of their deeds.

The petty tyrants
Are meagre, narrow and slow men
who will never conquer the China Seas
nor the realms of Manicongo.

They fear words that leave traces
and whisper to the public in empty conclaves
to amplify the echo of their perpetual childhood.

Translation copyright 2007 by Amanda Hopkinson. All rights reserved.

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